Trovander

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Olhava o céu azul sem nuvens enquanto o amigo Joãozinho roncava ao lado, a professora dizia qualquer coisa desinteressante que muito interessava à Laurinha, menina ruiva de olhos perdidos, tão perdidos no quadro negro. Que nada! perdidos estavam os dele, sempre desatentos em favor dos olhos dela, tão perdidos.

A professora discursava com tom de professores sobre o que era amor platônico, não que tal assunto originalmente interessasse o menino destento, afinal nenhum aluno de 3º série se interessaria por amor platônico, garanto que não fora por interesse que ele gastou um pouco do tempo em que admirava Laurinha para prestar atenção na aula, virou o pescoço para o quadro negro, quanta coisa arriscada haveria em perder segundos preciosos dispensando certos segundos com o despotismo acadêmico? Havia uma! Naquele instante a luz entrava pela janela de forma diferente, mais dispersa e ampla, nestas sitações os olhos de Laurinha abandonavam o tom castanho claro e ficavam verdes, e como era bom ver aquela mágica. Tornou a olhar Laurinha, mas o pouco de atenção à aula o fez enxergar um caminho para o começo de uma grande experiência. Agora sabia que o que sentia por ela era um amor platônico. E aquilo era bom, quero dizer, é melhor do que um simples amor, simples assim, só amor, não soava bem, já o amor platônico…

E quantas vezes já pensara em como dizer, talvez o simples “eu te amo”, ou em outra línguas: “I love you”. Não era um poliglota, certa vez lera que amar em Hurão é “trovander”, mas não sabia como colocar isso numa frase, algo como: “Minha doença é trovander você”, soaria ridículo, sem contar que ninguém se interessa em saber Hurão. No entanto o problema estava agora resolvido, já sabia como dizer aquilo que há tempos sentia.

O sinal tocou, os dorminhocos despertaram, mas os olhos de Laurinha como sempre perdidos, ele pediu para que ela ficasse na sala de aula um tempo a mais para lhe explicar aquela história de platonismo, e ela ficou, ao que ele sem perder tempo, agiu:

- Eu tenho algo a dizer Laurinha, quero dizer, algo a pedir… não…não… algo a propôr. É algo que sinto laurinha! Você quer ser meu amor platônico?

A menina abriu um sorriso de canto de boca primeiramente, o que o animou, mas logo após Laurinha começou a gargalhar, e muito alto, e o menino baixo. Ela disse que amor platônico era coisa de garotos, e que ela esperava um homem para si. Explicou-lhe o que era amor platônico, e ao negá-lo humilhou-o, ele devidamente enganado pelos olhos perdidos da menina, aprendeu o que é amar platônicamente, ignorou todas as mulheres que vieram a amá-lo, casou-se pelo dinheiro e traiu sua esposa com a balconista do hotel na Suíça onde passou a lua-de-mel, e nunca mais ousou a “trovander”.

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