Altruísmo a prazo

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‘O mundo pede socorro!’. Era isso que todos os cartazes gritavam colados pelos muros pichados. Eu desfilava em plena Augusta, fone no ouvido, bolsa de jacaré e tinta no cabelo. Não é que eu não queira mudar o mundo, entende? Mas só hoje eu tenho duas entrevistas de emprego, academia e uma criança bonita pra pegar na escola e alimentar. Será que o altruísmo não pode esperar até eu me acertar não?

Me lembrou do acordo que fiz com Deus na primeira (e última) vez que fui na igreja. ‘Tava indo pro médico pegar os resultados e vi aquelas enormes torres antigas. ‘Quem sabe rolava uma ajuda divina’ ri sem querer comigo mesma. Fiz meu acordo. E uma ameaça também, óbvio. Ninguém (em sã consciência) quer um filho aos dezenove anos do namorado cheio de pentelhos. Ai passou um padre bonito e eu fiz outra promessa.

‘Deus, pra cada criança esfomeada da África que eu salvar, tu transforma um homem gay em macho. Ou libera um padre desse acordo bobo de vocês, que acha?’. Eu nunca pude saber sua resposta porque nunca consegui sair da teoria pra prática. Eu fiquei um pouco ocupada nos nove meses seguintes.

Mas não é que eu não me importe, não, não senhor. Eu tenho minhas ideologias, assisto Jornal Nacional e até entendo meia dúzia de palavras em discussões engajadas. Porém, rola uma questão de prioridade, percebe? A minha fome me preocupa mais. Afinal, não é só de comida e dinheiro que vive o homem. Não, não, é preciso amor, afeição, sorrisos e umas-coisas-a-mais-que-eu-não-falo porque tenho uma filha de seis anos e se ela ficar sabendo, pega mal. São coisas que você resolve para você, porque no fim das contas, ninguém vai abrir uma ONG pra ‘mulheres com mais de cinqüenta anos que não trepam’. É preciso salvar a si mesmo antes de salvar o mundo. Mas se ninguém consegue nem fazer o primeiro, a gente fica assim; em plena av. Augusta desfilando com fone no ouvido, bolsa de jacaré e tinta no cabelo, pensando ‘não é que eu não queira mudar o mundo, entende?…’

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