Caixas

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Há muito tempo me divertia com um joguinho, aprendi-o com um amigo: invocava-se uma palavra qualquer, a primeira que vinha à mente, e em seguida pensava-se numa palavra que essa primeira fazia lembrar. Repetia-se o processo e ganhava-se um belo passatempo. Mas os anos pueris foram deixados para trás e a brincadeira se transformou em técnica. Passei a empregá-la sempre que notava ter perdido o contato comigo mesmo ou quando precisava colocar meus pensamentos em ordem e perspectiva. Virou instrumento de inspeção particular, e um muito preciso nesse sentido. Porque a tendência é fazer das palavras seguintes aquelas que de algum jeito abarcam as anteriores, como se você transformasse suas idéias em caixas de diferentes tamanhos e fosse acondicionando-as umas dentro das outras, como fisicamente possível, de modo que, no fim das contas, teria diante de si uma caixa do tamanho exato daquilo que considera maior do que tudo, dentro da qual se encontraria o seu pensamento organizado em uma hierarquia plausível porque totalmente instintiva. E aí, se você abre as tampas dessa grande caixa e volta analisando em que condição as outras caixas ficaram – dentro de quais e fora de quais – e quais os seus tamanhos relativos, descobre não só o que anda pensando sobre as coisas do mundo, mas também como as pesa e relaciona.

Foi essa técnica que evoquei hoje. Comecei com a caixa da “fome”, pensando nesse vilão atroz e sem face que mata milhões pelo mundo. Primeiro eu não sabia o seu tamanho – se ela era pequena o suficiente para caber em outra ou se era tão grande e pesada que não haveria nenhuma outra caixa que fosse capaz de encerrá-la. Acabei por descobri-la ínfima, pois foi logo empacotada por diversas outras caixas numa sucessão absolutamente egocêntrica de palavras nem tão soltas assim. Não me espantei quando, no final, vi à minha frente uma caixa que tinha o meu próprio nome, mas que ainda assim era bem maior do que eu mesmo. Dentro dela havia coisas como a estabilidade, a paixão e o sucesso. Todas fomes minhas. O que isso quer dizer? Oras, quer dizer o óbvio, onde o espanto não faz casa. Quer dizer que, no que diz respeito à fome, a prioritária é a minha própria. Antes de chegar à caixa da fome alheia, eu preciso abrir as caixas das fomes da realização pessoal, do sucesso profissional e da pizza com os amigos no fim de semana, para citar algumas delas.

Mesmo assim, não me preocupo com isso. E alguém pode perguntar se não somos todos assim, a indiferença não é natural de todo homem? Não, e é aí que está a graça da metafonia. As vozes das pessoas que colocam a satisfação da fome alheia em primeiro lugar dão o suporte de que a minha própria voz necessita para poder dizer o que diz sem carregar culpas. Eu tenho 800 milhões de fomes que não podem ganhar de mim e que eu achei que por bem deveriam ser privatizadas. Privatizei-as, então. Para aqueles que estão perdendo as suas lutas contra o seu número particular de fomes e que estatizaram a necessidade de sua satisfação, existem aqueles cujas caixas da preocupação com a fome alheia são maiores do que as caixas dos seus próprios nomes. O que eu quero dizer é que eu faço parte do Estado, mas tenho os meus próprios negócios com que me preocupar. Enquanto houver o funcionalismo público, posso ficar tranqüilo dentro da minha bolha de egoísmo.

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