Eu vivo num mundo cru. Ao meu redor, vejo uma minoria de pessoas prontas, aptas a interpretar a vida, dissecá-la; a maioria opõe-se, recusa-se a perceber a áspera realidade, prende-se a um minúsculo universo particular, é covarde demais para mudar as idéias.
E esse mundo real, qual é? É o da miséria e da injustiça. É o mundo do desperdício e da fome. Essa última, aliás, é a maior semeadora da discórdia e causadora do caos.
A fome tem o poder de moldar personalidades. Quem a vê nunca se comporta como quem a sente. É grotesca, causa arrepios e aversão. E pena. Eu, espectador, reviro meus olhos, penso em ajudar… só. Eu, que jamais senti fome, restrinjo, involuntariamente, minha compaixão. Meus próprios problemas sobrepõem aqueles que aterrorizam milhões, e eu me perco; fecho os olhos para questões globais: são cotidianas, e eu já me acostumei. Creio que é esse meu maior pecado – saber e não agir. Assisto mortos simularem vida com uma naturalidade repulsiva.
Consola-me o fato de haver muitos como eu. Bilhões que se contentam em ser apenas objetos de manipulação, massa. Ora, é preciso ser sujeito da história! Mudar, colaborar. Aquilo que prejudica o mundo conseqüentemente afeta todos nós; o individualismo só faz aumentar o crescente abismo em que nos encontramos.
Por sinal, como estão seus olhos?
13 de março de 2009
por Phillipe Marcell
Meus olhos estão abertos, e portanto eu vejo. Mas é só. Quando muito, escrevo.