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	<description>Just another Sem Fronteiras site</description>
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		<title>Dada! Dada!</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 09:59:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Seccato</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[singlepic id=10 w=320 h=240 float=center] Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[singlepic id=10 w=320 h=240 float=center]</p>
<p><em>Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura</em>.</p>
<p>Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura &#8211; loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, <em>mas de qualquer maneira loucura</em>.</p>
<p style="text-align: left"><em>Ernest Becker. A negação da morte.</em></p>
<p style="text-align: left">Com esse excerto de Ernest Becker, abracemos a bandeira da insanidade (pelo menos por hoje) e encaremos as psicoses como parte natural e fundamental de nós mesmos. Dada!</p>
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		<title>Café forte com muito açúcar</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 09:59:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ingridy Peixoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[3]]></category>

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		<description><![CDATA[- GOSTA DE CAFÉ FORTE? COM AÇÚCAR? Indagava um homem, ansioso pela resposta do desconhecido a quem havia perguntado. Esse homem era Oscar, naquela segunda feira assistia ao jornal do meio dia como fazia todos os dias. Na manhã daquele dia havia se levantado às seis horas da manhã como sempre acordava. Sua mulher tinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 	 	 --></p>
<p>- GOSTA DE CAFÉ FORTE? COM AÇÚCAR?</p>
<p>Indagava um homem, ansioso pela resposta do desconhecido a quem havia perguntado.</p>
<p>Esse homem era Oscar, naquela segunda feira assistia ao jornal do meio dia como fazia todos os dias. Na manhã daquele dia havia se levantado às seis horas da manhã como sempre acordava. Sua mulher tinha o café pronto na mesa. Ela preparou seu café forte com muito açúcar como ele sempre tomava.</p>
<p>Naquele dia Oscar não apenas assistiu ao jornal, ele viu o jornal como nunca havia antes. Oscar percebeu pela primeira vez, que no mundo havia outras pessoas, pessoas com hábitos diferentes. Pessoas cujas esposas não preparavam café forte com açúcar pela manhã, pessoas que nem mulher tinham.</p>
<p>Ele não conseguia parar de pensar que existiam pessoas que não viviam a sua vida. Pessoas que não acordam às seis da manhã, que ao chegarem em casa não viam a sua adorável esposa assistindo à novela e não usavam a desculpa de estar esperando o jogo para ver se Pablo havia deixado Lúcia. Deu-se conta pela primeiríssima vez que existiam pessoas que nem sabiam quem eram Pablo e Lúcia da novela.</p>
<p>Ensandeceu, perdeu a razão quando percebeu que cada um tinha uma vida diferente. Saiu à rua, quando avistou um homem lhe perguntou:</p>
<p>- GOSTA DE CAFÉ FORTE? COM AÇÚCAR?</p>
<p>O desconhecido um pouco assustado lhe respondeu que sim. Oscar então se acalmou e voltou a sua casa para ver o resto do jornal.</p>
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		<title>Memória</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 05:59:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Phillipe Marcell</dc:creator>
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		<description><![CDATA[E então eu me lembrava. Aquele quarto e aquelas paredes, sempre tão frias e tão silenciosas, e sempre com aquele papel de parede de que eu ria e que te pedia para substituir. As sensações iam voltando, as memórias vindo junto, todas juntas. E eu juro que eu sentia, que eu provava em minha boca, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E então eu me lembrava. Aquele quarto e aquelas paredes, sempre tão frias e tão silenciosas, e sempre com aquele papel de parede de que eu ria e que te pedia para substituir. As sensações iam voltando, as memórias vindo junto, todas juntas. E eu juro que eu sentia, que eu provava em minha boca, o calor do teu suor se misturando com o meu calor e a minha vontade, os nossos corpos se conjugando, sem que nenhum de nós dois soubesse ao certo se era eu quem estava dentro de você ou se era você quem estava dentro de mim. O torpor, Deus, o torpor. Inacreditável que eu pudesse tê-lo esquecido. A dança, o barulho e a cabeceira desta cama, aquelas nuances da madeira esculpida. O lençol todo desarrumado, tão fino, tão caro, e o travesseiro velho, que você carrega desde pirralho, em algum lugar embaixo de mim. Será que ele imaginava que um dia estaria no meio dessa coisa de adultos? Céus, eu me lembrava. O amor, o amor que não acabava nunca. Aquele desejo que estava satisfeito só enquanto nós nos abraçávamos, enquanto os seus braços estavam entrelaçados nas minhas costas, as suas mãos inocentemente (condição discutível, aliás) esquecidas naquela parte de que você tanto gosta do meu corpo. Só até você cair para o lado, temendo a porta e os barulhos que vinham de trás dela. O tempo, o tempo na poeira que a luz filtrava. Eu o via flutuando ali, naquele mesmo círculo preguiçoso em que a poeira dançava. Era estático, independente, mais leve do que o próprio ar. Podia estar ali, à luz da janela e do sol poente, e podia estar na altura que bem estivesse. Simplesmente continuava pairando, espreitando, tão invencível como indiferente. Ou quase. Pensando bem, bastava um sopro para que se desestabilizasse, que se abrisse um túnel e restasse ali em seu lugar um ensaio de nada. Um absoluto vazio de sentido e de matéria. Mas acima de tudo, eu me lembrava. Lembrava-me também do frio do metal. A força da pancada. Até do rosto irado e perverso que por alguns segundos eu vislumbrei no escuro eu me lembrava. O olhar mais frio que a própria pá, sim, eu me lembro. Sentia o frio, o medo, mas também sentia o teu calor, tudo ao mesmo tempo. E me confortava. Não sabia se eu terminava ou se começava em você. Aquelas horas antes, a dança, toda a ousadia de um beijo e de um passo. Sim, eu me lembrava! A música. Acho que me lembro do ritmo, ele vai bem com a nossa dança. Com a dança que fazíamos nessa cama também. Céus, é tudo tão vivo. E eu me lembro dos seus olhos! Daquela única vez em que você deixou o amor saltar deles. Nesse dia ele transbordou de tal jeito que afetou todo o seu sorriso, que ficou mais amplo, tão mais belo que eu senti que podia morrer feliz depois de tê-lo visto. A poeira continua girando lenta, a luz ainda a revela. Eu não a assoprei. O tempo está parado, eu estou aqui parado, estive tempo demais assim. Eu me lembro, agora eu me lembro! Mas sei também que já é tarde. O quarto está vazio, você não trocou o papel de parede. O lençol está desarrumado, ele ainda cheira a última vez. À última vez. Tudo cheira a final. Eu quero sentir tudo isso por mais alguns instantes, e depois eu quero voltar àquele quarto de hospital, passar uns dias apagado, acordando uma vez a cada dia e me sentindo tonto, vendo a cortina branca se confundir com uma imagem de algum sonho estranho que eu estava tendo antes, e os bipes ecoarem bem distantes, tudo rodar e se fundir com um novo sonho, esse todo escuro. Quero voltar para lá só para acordar em um dia que não sei se é quinta-feira ou se é domingo e ver os seus olhos me observando. Cheios daquele mesmo amor, mas sem sorriso. Cheio da compaixão que acho que busquei a minha vida toda. Tudo no seu olhar. E então, eu o tendo visto, poderei sentir que posso morrer mais uma vez. Eu olho a porta. Não há mais riscos de que alguém entre. Essa deve ser a primeira vez que eu olho para ela e ela não me diz nada. Nem que alguém está chegando, nem que você está voltando. Só é um pedaço de madeira. É esculpido também. Mas ele não me atrai, assim como o silêncio e o vazio e a solidão dessa casa já não me parecem mais assim tão atraentes. Já é tão tarde&#8230; E de tanta imensidão restou só um feixe. E esse vazio. Esse vazio aqui.</p>
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		<title>Finito e Condicional</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 09:59:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lucas Pasqual</dc:creator>
				<category><![CDATA[3]]></category>
		<category><![CDATA[Adicionar nova tag]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro você nasce. São nove meses (desconsidero anomalias) definidos pela ansiedade e inquietação. Incontáveis planos destinados a você. Naquele momento, no exato instante em que você respira sozinho pela primeira vez e grita com os pulmões cheios, você é a personificação do amor e da conquista. Você cresce. A princípio, você é dependente ao extremo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro você nasce. São nove meses (<em>desconsidero anomalias</em>) definidos pela ansiedade e inquietação. Incontáveis planos destinados a você. Naquele momento, no exato instante em que você respira sozinho pela primeira vez e grita com os pulmões cheios, você é a personificação do amor e da conquista.</p>
<p>Você cresce. A princípio, você é dependente ao extremo, incapaz. Mas a natureza assopra sua experiência e o crescimento é inevitável; engatinha, balbucia, anda, fala, corre. E muda, você sempre muda. Suas preocupações são os brinquedos e os desenhos animados.</p>
<p>Mais alguns pares de anos e você entra naquela fase insuportável. Irritante, longa, mas, ainda assim, nostálgica. Diversas iniciações e uma faísca de maturidade deixam esse período marcado. Você começa a perceber a efemeridade que o cerca.</p>
<p>Lógico seria fechar os olhos e continuar. E é de tal forma que seguem alguns; outros tantos preferem analisar a realidade, e são esses os que fazem a diferença eventualmente. Enfim, a vida adulta chegou e você aprendeu a sobreviver. E essa fase é a que traz mais mudanças. Ainda que preso a uma rotina – <em>não, não há aqui um bom conceito</em> -, você se transforma e revê o mundo constantemente.</p>
<p>Surge, afinal, a última fase. A mais frágil, por que não? Você está cansado, exausto do marasmo e em profundo entorpecimento. Pergunta-se qual o sentido em ter vivido tudo; qual a razão por estar ali; qual o motivo em ter ficado tanto tempo em dúvida. Você não sabe a resposta, é claro. Alguns hipócritas dizem que você viveu para amar; ah, se eles percebessem a beleza e a inconsciência do amor&#8230; Há aqueles que afirmam a fé sobre todas as coisas; desnecessário dizer o quão rasos são. Certos egoístas crêem apenas na sorte; esses, coitados, não souberam aproveitar os longos anos.</p>
<p>Concluo: você não sabe por que está aqui, de onde veio ou para onde vai. Você viveu sem saber, uma verdadeira loucura. E então você morre.</p>
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		<title>Palha, Tesoura, Cabelo e Cerveja.</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 09:59:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Seccato</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Era noite. Nos romances, sempre é noite. Pouco tempo fazia desde que Cecília se maquilara para ir ao baile. Sentada folheando antigos cadernos, não pensava sobre muito. Sabia qual era o dia e o lhe era esperado. Não há motivo de pânico, saberia o que fazer. O pânico só surge quando a algum sentimento em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--[if gte mso 9]&gt;  Normal 0 21   false false false        MicrosoftInternetExplorer4  &lt;![endif]--><!--[if gte mso 9]&gt;   &lt;![endif]--><!--[if !mso]&gt;--><span class="mceItemObject"></span></p>
<p><!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Era noite. <em>Nos romances, sempre é noite.</em> Pouco tempo fazia desde que Cecília se maquilara para ir ao baile. Sentada folheando antigos cadernos, não pensava sobre muito. Sabia qual era o dia e o lhe era esperado. Não há motivo de pânico, saberia o que fazer. O pânico só surge quando a algum sentimento em volta. Mais do que nunca, Cecília era palha. Tão fina e insensível, igual não existia. Se existisse, talvez não fosse tão fina. Ou tão insensível.</p>
<p class="MsoNormal">O telefone tocou uma vez. Duas vezes. Movera seu corpo lentamente, a seda vermelha do vestido sequer brilhou. Pousou a mão no aparelho, e lutou contra o bom senso. “Para que?”. Puxou o fone e o colocou na mesma posição. Voltou a sua cadeira, afundando o corpo no sofá. Desfez o penteado e sentiu aquele longo cabelo caindo pelos ombros. Nunca lhe agradara aquele cabelo. Foi até a cozinha e buscou aquela velha tesoura branca. ‘Um horror de tesoura!’. Cortaria o céu se fosse preciso. Abria as gavetas com certa violência, remexendo nos garfos e panos de prato. O telefone tocava de novo. De modo bruto, foi até a sala e puxou o aparelho com força e arremessou contra o chão. Respirava forte, com ódio e satisfação. Era uma batalha vencida, ainda faltava outra.</p>
<p class="MsoNormal">Voltou à cozinha de modo mais pacifico, procurou novamente na primeira gaveta e lá estava, tão branca e tão grande como se lembrava, a tesoura. Abriu a geladeira e procurou a garrafa de vinho que deixara ali desde a última visita. Não, não vinho, cerveja. Queria cerveja. Como por milagre, encontrara uma lata no fundo, escondida atrás da ricota. Tomou-a pela metade em um gole. Já adiara aquele momento por demais; “o cabelo”, pensou.</p>
<p class="MsoNormal">Foi ao banheiro. Uma volta ao mundo até o banheiro. “Porque diabos uma casa tão grande para uma palha?” se indagava. Olhou-se no espelho. Toda a maquilagem desfeita e torta. Sorriu, mas um sorriso indigesto. Era finalmente, tão torta quanto a própria alma. “Ah, se me vissem agora!”. Queria gritar para que todos a ouvissem. Era mais ela do que nunca foi. “Sou Luisiana” dizia. “Luisiana! Luisiana!” gritava loucamente. Tocaram-lhe a campainha. Deveria ou não atendê-la? Correu até a porta e num movimento só abrira a porta por completo. Não havia ninguém.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Piromania</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 09:59:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kenner Langner</dc:creator>
				<category><![CDATA[3]]></category>

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		<description><![CDATA[- Bom dia! - Bom dia, doutor! - Carlos Cavalcante, certo? - Sim. - Bem, sou seu novo psiquiatra, doutor Roberto. Muito prazer. - Muito prazer. - Como se sente hoje Carlos? - Louco doutor. Como sempre! - Carlos, você completa hoje 10 anos de reclusão no nosso hospício, mas este não é o problema, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Bom dia!</p>
<p>- Bom dia, doutor!</p>
<p>- Carlos Cavalcante, certo?</p>
<p>- Sim.</p>
<p>- Bem, sou seu novo psiquiatra, doutor Roberto. Muito prazer.</p>
<p>- Muito prazer.</p>
<p>- Como se sente hoje Carlos?</p>
<p>- Louco doutor. Como sempre!</p>
<p>- Carlos, você completa hoje 10 anos de reclusão no nosso hospício, mas este não é o problema, segundo consta nos relatórios de seu antigo psiquiatra, você nunca apresentou evidências reais de quaisquer distúrbios psicológicos. No entanto, acredito que por negligência médica, você nunca sofreu uma avaliação de seu estado mental, exceto a avaliação inicial de quando pediu voluntariamente para ser internado em regime de total reclusão. E pelo que consta no relatório você foi avaliado como tendo piromania.</p>
<p>- Pois é, essa coisa toda é fogo não?</p>
<p>- Não se faz piadas com este tipo de coisas Sr. Cavalcante!</p>
<p>- Que falta de senso de humor doutor! Acredito que isso seja algum distúrbio mental, posso te indicar um ótimo psiquiatra, se desejar!</p>
<p>- Você deseja continuar em reclusão rapaz?</p>
<p>- Sim!</p>
<p>- Realmente acredito que você seja louco! Mas não posso permitir que você continue com essa loucura de auto-reclusão se não possuir um verdadeiro distúrbio. Talvez você só tenha medo que isso que você pensa ter se manifeste, mas com um tratamento psicológico em liberdade isso pode ser facilmente solucionado. O mundo vai te fazer melhor no tratamento do que o isolamento dele.</p>
<p>- Hahahahahaha! Me desculpe doutor, por um instante eu realmente pensei que o senhor não possuísse senso de humor, mas você é fantástico, há tempos eu não ouvia uma piada tão boa! “O mundo vai me fazer melhor”, foi impagável, e pensar que eu sou louco foi ainda melhor. Por acaso você não pensa realmente que qualquer um neste hospício seja louco? Pensa?</p>
<p>- Que é isso?</p>
<p>- Chega mais doutor, mais perto vai, quero te sussurrar algo. Ninguém aqui é louco! Estamos todos muito sãos! Deixe-me te explicar. Todos os dias nós vemos homens como você entrando e saindo daqui com seus jalecos e cabelos brancos, e nos questionamos, como eles podem? Sabe? Andar lá fora, como conseguem? Todos vocês estão a todo tempo se entreolhando e profundamente questionando a si mesmos, será que esse cara é honesto? Não é um assaltante? Será ele casado? Trai a própria mulher? E esta mulher, fantástica! Será ela casada? Trai ela seu homem? Me acha atraente? Estou eu atraente hoje? Ajeita o jaleco! Passa um garoto de rua e vocês seguram a valise com força, sentem nojo e medo. Passa outro homem, será ele gay? Olhou com desejo pra mim, estou atraente hoje! E me diz doutor, como você agüenta viver num mundo em que pessoas matam pessoas, homicídios, latrocínios, genocídios, parricídios&#8230; Aliás, os homicídios passionais são os meus prediletos. Roubos, estupros, hipocrisia, egocentrismo, humilhação constante e de todo lugar, desestruturação em tantas famílias, fome e pessoas que lucram com tudo isso. E você convive com isso e entende, digo concorda até certo ponto, pois não considera estes indivíduos como doentes mentais, afinal teria de classificar todo porco humano vivo na terra como um louco em potencial. E se você não julga estas atrocidades como loucura é por que concorda e aceita tudo, vive com medo constante da próxima esquina, estando, portanto, também incluso na total loucura. Vocês vivem uma vida totalmente restrita, por estar sob julgamentos constantes de uma mesma sociedade moral e louca, e ainda vivem por acreditar em uma esperança incerta, que é esperar uma vida melhor após a morte. Então eu pergunto doutor. Quem é o louco aqui?</p>
<p>Um silêncio cobriu a conversa, Roberto olhou aquele homem com medo, aquele medo mesmo que nos evita muitas coisas. Medo por ouvir uma verdade que ele conhecia, mas que mantivera inconsciente em seu superego, a verdade do medo. Levantou-se e saiu da sala sem nada dizer, e assinou o atestado de periculosidade social de Carlos Cavalcante por possuir piromania.</p>
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		<title>Porquinhos no Divã</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 09:59:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lucas Anghinoni</dc:creator>
				<category><![CDATA[3]]></category>

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		<description><![CDATA[Dizer que o bendito Freud &#8220;sabe explicar&#8221; talvez já tenha se tornado um aborrecido lugar-comum. A psicanálise freudiana e a neurociência moderna não satisfazem minha grande interrogação quando me pergunto o porquê de tamanho pânico diante das situações novas que aparecem no caminho da humanidade. Agora, refiro-me em especial à tal gripe suína, essa que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dizer que o bendito Freud &#8220;sabe explicar&#8221; talvez já tenha se tornado um aborrecido lugar-comum. A psicanálise freudiana e a neurociência moderna não satisfazem minha grande interrogação quando me pergunto o porquê de tamanho pânico diante das situações novas que aparecem no caminho da humanidade. Agora, refiro-me em especial à tal gripe suína, essa que fez com que o governo do Egito realizasse a matança de uns 300 mil porquinhos.</p>
<p>É claro que o medo de todo ser humano, assim como de qualquer animal irracional, é justificável diante de alguma ameaça à sua sobrevivência. Toda a consciência histórica dos trágicos ciclos epidêmicos, desde a peste negra até a gripe espanhola e a aviária, deixa-nos em alerta para qualquer outro surgimento de um vírus letal que possa tirar nosso sossego.</p>
<p>Contudo, o que é percebido ultrapassa a definição de medo: é um desespero generalizado &#8211; em que o medo de cada um se mistura e forma um sentimento só, distorce a realidade dos fatos e monstrualiza o que talvez não seja tão tenebroso. Um pessimismo neurótico nos assola, aí se vê quanto poder pode ter uma única palavra (nesse caso, Suína).</p>
<p>Esse falso prognóstico não chega a ser uma psicose, mas já está quase lá. Mesmo não havendo distorções da personalidade, existe a perturbação na percepção da realidade, que acaba por classificá-lo em uma psiconeurose. Então, pobre dos porquinhos egípcios. Além de não terem nada a ver com a história, já foi até provado cientificamente que o novo vírus é mais fraco que o vírus da gripe comum. E o que fazer para salvar os porquinhos? Mudar o nome de gripe suína para gripe A foi o que a OMS considerou mais plausível, e é (considerando todo o poder que uma mera combinação de palavras exerce sobre a mente humana).</p>
<p>É óbvio que o objetivo da mudança está além da salvaguarda dos porcos (que nesse caso, é metonímia para todo o tal desespero), e essa simples reação da sociedade à mudança do nome me permite ter a certeza de que algo mais que o temor nos envolve. Enfim, a neurose corre em nossas veias, a única questão é se alguém sabe responder por quê.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Fomes</title>
		<link>http://metafonia.org/2009/02/12/fome/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Feb 2009 05:59:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lucas Pasqual</dc:creator>
				<category><![CDATA[2]]></category>

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		<description><![CDATA[[singlepic id=9 w=320 h=240 float=center] &#8220;A fome assombra 800 milhões de pessoas; uma a cada três crianças do mundo é subnutrida; onze mil morrem de fome a cada dia&#8221; A princípio, dados assim nos intimidam &#8211; a princípio, fique claro. Logo voltamos a viver despretensiosamente, buscando sonhos e saciando vontades &#8211; nossas próprias fomes. Exageradamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[singlepic id=9 w=320 h=240 float=center]</p>
<p><a class="shutterset_" title="http://winktothanatos.deviantart.com" href="http://metafonia.org/metafonia/wp-content/gallery/editoriais/the_hunger_by_winktothanatos.jpg"></a>&#8220;A fome assombra 800 milhões de pessoas; uma a cada três crianças do mundo é subnutrida; onze mil morrem de fome a cada dia&#8221;</p>
<p>A princípio, dados assim nos intimidam &#8211; <em>a princípio</em>, fique claro. Logo voltamos a viver despretensiosamente, buscando sonhos e saciando vontades &#8211; nossas próprias fomes. Exageradamente egoístas, por vezes nos importa mais o ego que o semelhante; problemas comuns são vistos com tamanha naturalidade que nos resta questionar onde estamos vivendo.</p>
<p>Com a proposta de não fazermos parte desse imenso grupo comodista, colocamos a fome ao lado das fomes, dos desejos e anseios, como temas dos próximos textos.</p>
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		<title>Malthus não poderia estar mais errado</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Feb 2009 09:59:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ingridy Peixoto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[De mente e estômagos cheios, anda pelas agitadas ruas da cidade de coração vazio. Aprendeu na escola que no atual mundo urbanizado, muitas vezes o trabalhador do campo não tem acesso à comida que ajuda a produzir. Mas com isso não mais se preocupa, a sensibilidade que o fato causa foi neutralizada pela correria cotidiana. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De mente e estômagos cheios, anda pelas agitadas ruas da cidade de coração vazio. Aprendeu na escola que no atual mundo urbanizado, muitas vezes o trabalhador do campo não tem acesso à comida que ajuda a produzir. Mas com isso não mais se preocupa, a sensibilidade que o fato causa foi neutralizada pela correria cotidiana.</p>
<p>A fome em sua mente é apenas mais um conceito. Haja ou não milhões de famintos espalhados pelo mundo, ele, às seis da manhã, acorda e vê o sol brilhando. Diz ao filho para terminar o prato do café da manhã, com tanta gente passando fome no mundo, não fazê-lo deve até ser pecado. No entanto seu filho, para sua surpresa, responde:</p>
<p>- Quer eu termine este prato ou não, essas pessoas continuarão passando fome.</p>
<p>Ele se espanta ao verificar que a fala do seu filho possui certa legitimidade. Ficou o dia todo pensando: &#8220;Malthus não poderia estar mais errado!&#8221;. Há comida mais que suficiente para a população, contudo só a tem quem por ela pode pagar. Todos esses anos investindo na bolsa e nunca antes havia se dado conta de que ao se especular o preço do trigo, indiretamente se especulava o preço da vida. &#8220;E ainda ousam dizer que a vida não tem preço&#8221;, pensava. Não é mera coincidência que a comida de qualidade só chegue a áreas abastadas.</p>
<p>Naquele dia, percebeu o crime escondido atrás da monocultura, das multinacionais, do objetivo de vender um produto ao maior preço possível.</p>
<p>- Como pode o alimento ser apenas mais um produto, mais um lugar de onde se obter lucro, se perguntava.</p>
<p>A fome só acabará se consigo levar a tão gritante desigualdade social. &#8220;Sozinho não posso mudar o mundo&#8221;, pensou e continuou a viver sua vida&#8230; o que essa correria cotidiana não faz&#8230; fez até um homem se esquecer de que o os recursos do mundo, com a ajuda da tecnologia, conseguiram acompanhar o estrondoso crescimento populacional, mas perderam a corrida para a crescente ganância humana.</p>
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		<title>Metáfora</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Feb 2009 09:59:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kenner Langner</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aquela criatura agachada no escuro é a grande metáfora. Seu olhar fugidio, de uma feminilidade perdida, guarda em seu ventre adolescente a maior desventura de uma vida, e não fossem os ratos venerando seu corpo esquálido e andando sobre sua pele manchada pelas horas medianas, sua vida seria uma simples passagem motivacional, sua desgraça faria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aquela criatura agachada no escuro é a grande metáfora. Seu olhar fugidio, de uma feminilidade perdida, guarda em seu ventre adolescente a maior desventura de uma vida, e não fossem os ratos venerando seu corpo esquálido e andando sobre sua pele manchada pelas horas medianas, sua vida seria uma simples passagem motivacional, sua desgraça faria os mais engajados humanos morderem a própria perna nas mais internas revoluções, enquanto trancados na construída glória buzinante de um semáforo fechado, revoltam-se contra indignidade estatal contida no valor salivar que embaça o vidro com um pedido.</p>
<p>Negado! Próximo!</p>
<p>Uma simples passagem motivacional. E aceita a missão fornecida, tenta sobreviver, vai para a cama com os mais desmotivados homens por um pouco de comida.</p>
<p>Negado! Próximo!</p>
<p>Abre o sinal e a criatura corre de volta para o refúgio, agachada no escuro, ela é a grande metáfora. Cresce em seu ventre, uma força maior, um ser que ameaça, que faz cair o mundo, um filho não desejado que grita em seu interior &#8211; o calafrio e dor intraestomacal periódica &#8211; é ele que devora as entranhas do hospedeiro quando sente fome. Uma ânsia sobe a garganta, é teu filho reclamando a luz, e quando menos se espera, vomita-se um ser esquálido e de pele manchada pela luminosidade e vê que realmente era ela aquela criatura em tamanho real saída de sua própria boca que logo corria para o sinal fechado tornar-se mais uma simples passagem motivacional. Negado! Próximo! Negado! Próximo! Próximo&#8230; Acorda, pois o sinal já fechou e as buzinas ululam, e a criança já cresce em seu ventre, e uma outra já cresce no ventre da mesma e dentro desta outra, sendo que todas vomitar-se-ão as próprias pelo resto da existência.</p>
<p>Negado! Próximo!</p>
<p>Rasga o abdômen com uma garrafa quebrada e deixa cair o feto, pois ele devorava as entranhas de seu corpo.</p>
<p>O jornal do dia seguinte trás na primeira página o ápice de sua simples passagem motivacional, fazendo os mais engajados humanos morderem a própria perna nas mais internas revoluções&#8230;</p>
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